terça-feira, 15 de julho de 2014

O CRISTÃO E AS FESTAS RURAIS


Segundo informações da Prefeitura de Resplendor (MG) em seu site, acontece entre os dias 25 e 27 de Julho a Festa Rural da cidade. Com a realização de rodeio profissional todos os dias, shows e grande cavalgada, espera-se um grande ajuntamento de pessoas no Parque de Exposições. No interior, é natural que um pastor seja procurado por muitos cristãos desejosos por uma uma opinião, uma palavra, uma posição, que os ajudem a entender se devem ou não participar de uma festa rural. O motivo, via de regra, envolve práticas religiosas, consumo de bebidas alcoólicas e músicas seculares.


Antes de qualquer coisa, creio que esta reflexão valha para esclarecer como se dá o envolvimento do cristão no mundo à qual está inserido. Por "cristão", refiro-me àqueles homens e mulheres que recebem as Escrituras Sagradas como Palavra de Deus, como norma de fé e prática. Por "festas rurais" exponho aqueles ajuntamentos sociais onde é possível assistir rodeios, cavalgadas, exposição de animais, bebidas e comidas em fartura, parque de diversões, shows, boates, etc.

O cristão que medita, porque crer também é pensar, não é alienado. Diante de uma festa como esta, ele facilmente reconhece aspectos positivos e negativos. Sim, é possível.

Para uma cidade como a nossa, de interior, uma festa sempre é oportunidade para ganhos econômicos e contentamento da população. Obviamente, os comerciantes venderão mais nos dias da festa. O povo, sofrido e aguerrido, vê nesse momento uma oportunidade de descanso "d'alma", de aliviar sua dor, de cantar, de curtir, de "afogar as mágoas", enfim. Para estes, isto é muito bom, é positivo.

Por outro lado, a festa chega ao fim e, com ele, permanecerão os dias de um comércio em baixa, amornecido. Restará a ressaca, a indisposição e o cansaço, pois os problemas não sumiram com o apagar das luzes. Muitos beberam e gastaram mais do que deviam. Talvez brigaram com outrem. Por sorte, não sobrecarregarão o hospital e a polícia com situações que poderiam ter sido evitadas. Eis o lado negativo de uma festa.

Dito isto, fica a grande pergunta: "e o cristão? Pode participar?". Acho que a pergunta certa seria: o que a Bíblia ensina sobre o comportamento do cristão no mundo? Permitam-me sistematizar parte de seu precioso ensino em duas declarações que, mesmo que aparentem, não são excludentes. São os dois lados de uma mesma moeda. 

1) O CRISTÃO NÃO FAZ PARTE DESTE MUNDO. É bem possível que já tenha ouvido que a Igreja não pertence a este mundo (Jo 15.18-19), que o mundo jaz no maligno (1 Jo 5.19) e que não devemos amar as coisas que há no mundo (1 Jo 2.15). "Por isso, não se deve participar de festas rurais", afirmam alguns. O textos são de Deus, são bons. Contudo, é triste observar que muitos cristãos são manipulados por suas lideranças com simples proibições pautadas em falta de exegese, hermenêutica e bom senso. Se o cristão não pode participar de eventos comunitários (que, não por nossa escolha, envolvem questões religiosas, bebidas alcoólicas e músicas seculares) a partir desses textos, como ficam os casamentos, as formaturas, os passeios turísticos, os aniversários e muitos outros eventos sociais que contemplam a mesma realidade? Nos ausentaremos desses também? Entenda: a Igreja não faz parte deste mundo, isto é, sua esperança está no mundo porvir. O mundo é a humanidade transviada dos padrões divinos, conduzido e cegado pela antiga serpente. A Igreja deseja andar pelo Caminho aplanado da graça, pastoreada e esclarecida pelo Senhor Jesus. O cristão amadurecido fala de Deus no meio de outros deuses (At 17.23), sabe comer, beber e ouvir músicas para a glória de Deus (1 Co 10.31).

2) O CRISTÃO FAZ PARTE DESTE MUNDO. Jesus não orou para que a Igreja fosse tirada desse mundo (Jo 17.15), afinal ela é sua luz (Mt 5.14); sua missão é no mundo (Mc 16.15). Muitos cristãos enfatizam apenas a primeira declaração, se esquecendo da segunda. São taxados de "santinhos", porque proíbem certos "pecados" e cometem outros grosseiros no dia-a-dia. A verdadeira santidade consiste em se manter puro no meio da iniquidade. A verdadeira Igreja está perto das pessoas que ainda não são Igreja. Quanto mais a Igreja se isolar do mundo, das pessoas, mais distante ficará o cumprimento de sua missão.  Jesus se aproximava dos "doentes", dos pecadores, dos publicanos, das meretrizes... O Mestre se aproximava das pessoas, do mundo, sem se contaminar, sem se tornar parte de seu estado alienado e de inimizade com Deus. A Igreja precisa estar apta a realizar sua missão em qualquer lugar do mundo; necessita de firmeza para ser luz em qualquer lugar do mundo. O cristão amadurecido fala de Deus no meio de outros deuses (At 17.23), sabe comer, beber e ouvir músicas para a glória de Deus (1 Co 10.31).

Portanto, creio que um cristão comprometido com a Palavra de Deus pode estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa, em qualquer circunstância, e ainda assim se guardar incontaminado. Essa é a religião pura e sem mácula (Tg 1.27). Creio que um cristão maduro na fé possa assistir um rodeio, beber, comer e festejar com ou sem sua família sem pecar. Agora, se há fraqueza espiritual, problemas com testemunho, medo das ciladas do inimigo, paixão por esse mundo, desejo de pecar, é melhor que não participe; é bem melhor que não envergonhe o Evangelho de Jesus. É melhor fugir destas coisas.

Caro (a) leitor (a), não vá ou não a uma festa por outros. Vá ciente de que "todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas... todas são lícitas, mas nem todas edificam (1 Co 6.12; 1 Co 10.23). A decisão é sua, mas sempre precisa ser para a glória de Deus.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

DEZ CARACTERÍSTICAS DE UMA IGREJA FRIA

"Um número significativo de cristãos acreditam que uma igreja fria é caracterizada pela ausência do chamado reteté de Jeová".





Nessa perspectiva  ensinam que uma comunidade desaquecida espiritualmente é desprovida de gritos, danças, giro santo, e outras coisas mais.

Há pouco fiquei sabendo de um irmão aque afirmou que uma igreja gelada é aquela que enquanto o pastor prega ninguém grita glória, aleluia ou coisa parecida.

Caro leitor, as definições que alguns entendem quanto ao que seja uma igreja fria é de arrepiar os cabelos. Lamentavelmente parte do povo de Deus tem fundamentado sua percepções doutrinárias em achismos desprovidos de conteúdo bíblico.

Isto posto, resolvi elencar sete REAIS características de uma fria:

  1. Uma igreja fria se caracteriza pela relativização do pecado. Geralmente os membros destas comunidades chamam doce de amargo, amargo de doce; luz de escuridade, escuridade de luz. Nessa perspectiva, não vêem problemas no sexo antes do casamento, em defraldar o próximo, em mentir, em promover suborno, fazer fofocas, produzir contendas e muito mais.
  2. Uma Igreja fria é uma igreja que não valoriza a oração. Uma igreja que não ora e não acredita na importância de orações, intercessões e ações de graça é uma igreja desprovida da vida de Deus em suas estruturas.
  3. Uma Igreja fria ama o mundo e as coisas que há no mundo. Nessa perspectiva permitem que os valores deste século prevaleçam sobre aquilo que as Escrituras dizem e ensinam.
  4. Uma igreja fria relativiza as Escrituras. Para ela, a Bíblia não é a Palavra de Deus e em virtude disso colocam aquilo que sentem, acham ou pensam acima das verdades contidas na Bíblia.
  5. Uma igreja fria é desprovida de amor. Para os membros desta comunidade, gente é tratada como coisa e não como pessoas que possuem dores, angústias, problemas e carências.
  6. Uma igreja fria é caracterizada pela ausência de misericórdia em suas estruturas. Nessa perspectiva os órfãos são negligenciados, as viúvas abandonadas e os pobres desprezados.
  7. Uma igreja fria  é uma igreja desprovida de santidade. Para ela, conceitos como "separação  do mundo" são antiquados e ultrapassados.
  8. Uma igreja fria é uma igreja aonde não há relacionamentos profundos entre os irmãos.
  9. Uma igreja fria é uma igreja que valoriza os defeitos e erros dos irmãos em detrimento as virtudes e valores.
  10. Uma igreja fria é uma igreja que há muito perdeu o temor do Senhor.
É o que penso, é o que digo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

CONVULSÃO CALVINISTA

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No ano de 2009 conheci a favela. Um menino pobre de apenas quinze anos de idade, que não tinha envolvimento com o tráfico de drogas, havia sido morto com um tiro na testa desferido por um policial do BOPE numa operação na favela Mandela, na Zona Norte do Rio.

Decidi, naquele dia, fazer um protesto dentro da comunidade pobre, numa região que, devido ao histórico de violência, chamava-se Faixa de Gaza. Terror dos policiais cariocas. Conseguimos levar toda a imprensa para lá, procurando dar voz ao pobre e combater o abuso de poder. Não tardou que, após chegarmos ao local, viesse a notícia de que estávamos autorizados a entrar na favela. Naquele dia passei pela minha segunda conversão. 

Ao colocar os pés naquela aberração social, infestada de esgoto e ratazana, repleta de crianças vivendo em estado de miséria aviltante, sem mencionar aquilo sobre o que só poderei falar daqui a 20 anos, minha teologia convulsionou. Lá estava eu, -pastor de uma igreja presbiteriana, plantada por mim na década de 90, num bairro de classe média alta do Rio de Janeiro, herdeiro consciente de uma tradição teológica do cristianismo chamada calvinismo, à qual abraçara apaixonadamente na minha juventude-, num mundo novo e perturbador.

Cumpriu-se a profecia. A cabeça pensa a partir de onde pisamos. Perguntas emergiram à minha mente. 

1. O que o meu calvinismo tem a dizer sobre essa realidade? Quê leitura fazer sobre a miséria desse povo? Como chegou aqui? O que se pode fazer para livrá-lo dessa condição? Como manter meu antigo modelo ministerial, inspirado na vida de pregadores que até hoje amo, caracterizado pela dedicação à preparação de sermões, aconselhamento pastoral, pregação? 

2. Como posso manter-me atrelado a um modelo de ministério pastoral que me impede de viver a vida que o próprio Cristo viveu, que é apresentado na Bíblia, andando? Andando! Estando presente sempre onde mais havia demanda de compaixão. Em busca de gente que gemia de dor sem ser ouvida.

3. Pode-se conceber à luz das Escrituras igreja que não se sinta chamada para cuidar dos miseráveis da terra, para os quais Cristo dedicou quase a totalidade da sua vida? É concebível igreja que não tenha chamado para o pobre?

4. Como resumir o exercício do amor à evangelização e à filantropia nas ocasiões em que a ação política é imprescindível para livrar vidas humanas do seu estado de petição? Qual igreja pode trazer saneamento básico para essa favela? Como evitar que crianças levem tiro na cabeça em tiroteio entre policiais e traficantes? Como reformar esse mar de barracos? Como cuidar das suas doenças respiratórias e de pele? Como manter esses jovens na maior parte do tempo em escolas que os encantem? Deus, existe, portanto, o amor político?

5. O evangelho tem que ser proclamado por um igreja santa. Certo! Mas, o que é ser santo? Pode o santo tomar conhecimento desse cenário de horror na sua cidade e permanecer indiferente? Milhões não ouvem cristãos adúlteros, mentirosos, mercenários. Sabemos disso! Mas, o que falar daqueles que se escandalizam com a omissão da igreja face a tamanha desgraça social? 

Nunca mais saí da favela. Meu calvinismo, aquele que procura obediência a Cristo, me fez permanecer ali, assumindo todas as conseqüências da minha decisão. 

Ganhei outra Bíblia. Nela, vejo pobre por toda parte. Percebi um novo princípio ético, o amor que antecede a evangelização e a luta pela justiça social. Aprofundei meu conceito de missão. Hoje, entendo que a missão da igreja é amar. Amar com amor simétrico, harmonioso, lindo e santo, no qual todas as virtudes atuem em conjunto. 

Procurando compreender a realidade da favela à luz do evangelho, ficou claro para mim que leitura de viés ideológico de esquerda ou de direita não dá conta daquela realidade. Passei a ver as influências do marxismo e do liberalismo econômico dentro da igreja como profundamente deletérias da missão cristã no mundo, uma vez que produzem romantismo e desumanidade. A Bíblia ensina que o homem pode ser tanto responsável pela sua miséria quanto vítima de um modelo político-econômico de opressão.

Em suma, o Brasil deveria levar todos os cristãos a formularem e responderem a seguinte pergunta: o que significa ser cristão num país de miséria e desigualdade social? Na Alemanha de Hitler, a pergunta era outra: o que significa ser cristão no Estado nazista?, nos Estados Unidos de Martin Luther King, o dilema tinha característica bem distinta: como viver num país no qual crianças negras não podem beber água em bebedouro reservado para crianças brancas? O que o Espírito Santo está perguntando hoje aos cristãos brasileiros?

Amigo, quer encontrar a Deus? Encontre-o no pobre. 

Antônio C. Costa